quarta-feira, 14 de outubro de 2009

E TUDO ASSIM VAI


Há não-acontecimentos absolutamente geniais. O último caso deve-se a esta belíssima senhora, de nome Maitê Proença, neta de português, ao que parece, e profissional de renome e talento inegável.
Acontece, porém, que a dita senhora gravou um vídeo humorístico a satirizar os portugueses, e uma parte significativa das pessoas não gostou. Devo confessar, em primeiro lugar, que sempre admirei o trabalho desta actriz, nomeadamente desde que a vi contracenar no filma A Selva de Leonel Vieira, baseado na obra homónima de Ferreira de Castro, vi e gostei do que vi. Em segundo lugar, não acho que as pessoas devam pessoalizar e individualizar o referido trabalho de sátira e não devam confundir a comédia com a realidade. Em terceiro, algumas virgens ofendidas deste país são precisamente algumas daquelas pessoas que generalizam e estereotipam os brasileiros de: burros, ladrões e prostitutas. Confesso que a conversa me mete nojo. Se bem que é inegável um sentimento mútuo de estranheza, os portugueses e os brasileiros devem compreender que são e vivem realidades completamente distintas, ambos não são uma e a mesma coisa mas sim realidades diferentes; há uma passado em comum, é certo, mas o futuro é o que nos espera, nomeadamente na tentativa de superar a nossa solidão, pois sozinhos não somos nada e, em bases de amizade, construir esse bom futuro. A actriz tem razão, é preciso sabermos rir de nós mesmos, e não vem mal ao mundo a ironia e a sátira serem usadas para a comédia. Não podemos deixar de rir com defeitos que sabemos ter. A verdade é que a porcalheira é evidente e não vou descrever factos, e enquanto os portugueses não se indignarem com quem incivilizadamente permanece na dita pocilga, daremos azo a que se riam de nós. Mas também aqueles que se riem de nós, tendem a esconder os olhos da sua própria realidade.
É preciso não esquecer tudo isto, mas tomar isto como um bom exemplo daquilo que podemos mudar. A culpa não é de Maitê Proença. A comédia, mesmo que insultuosa, não pode ser culpabilizada de nada. É certo que não somos perfeitos, mas a base é melhorar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

terça-feira, 23 de junho de 2009

POSITIVISMO – Ao Encontro de Teófilo

comte O termo ‘positivismo’ designa três aspectos fundamentais:

a) a convalidação do pensamento cognitivo por meio da experiência factual;

b) a orientação do pensamento cognitivo para as ciências físicas como modelos de certeza e exactidão;

c) a persuasão de que o progresso do conhecimento depende de tal orientação.

Em consequência disto, o positivismo é uma luta contra todas as metafísicas, que são consideradas como pensamentos obscurantistas e regressivos.

O positivismo reconhece na ciência, não só a forma de conhecimento ideal, mas também a única válida.

O positivismo propõe-se vir ao encontro do desejo de entender o domínio do homem sobre a natureza por meio da ciência, e à exigência de organizar, por meio da ciência, o mundo humano.

O positivismo é aparentado com o materialismo: ambos vêem na matéria o princípio supremo, a causa última de toda a realidade.

Augusto Comte, é considerado o pai do positivismo. A parte mais importante do positivismo de Comte reporta ao valor e função da ciência. Mas o intento principal de Comte era elaborar uma filosofia da história baseada no princípio da evolução espontânea e mecânica.

Segundo Comte, todo o universo procede da matéria por via da evolução. Também o homem é produto da evolução da matéria. Quando a evolução atingiu o estádio humano, teve inicio a história, cujas fases principais são a teológica, a metafísica e a positiva, as quais constituem as três etapas fundamentais da história da humanidade.

Na época teológica, o homem explica os fenómenos naturais recorrendo a causas sobrenaturais; na época metafísica, explica os mesmos fenómenos recorrendo a princípios recônditos como a substância, essêncis, etc.; na época positiva, procura uma explicação científica por meio das leis naturais, as quais explicam por si só (sem necessidade de recorrer a Deus ou a princípios metafísicos) todos os fenómenos que constatamos.

Todos os ramos da história e do conhecimento humano passam por estes três estados.

Um dos aspectos mais originais do pensamento Comtiano diz respeito á função da filosofia.

Esta, é a forma mais alta do saber, a ciência suprema, mas não porque tenha um objecto distinto, superior ao objecto das outras ciências. A filosofia não é superior ás outras ciências no que se refere ao objecto. Segundo Comte, não existe nenhum outro objecto além dos objectos particulares estudados pelas outras ciências; além da realidade empírica não existe nenhuma realidade metaempírica; além da realidade física não existe uma realidade metafísica, divina, reservada ao estudo da filosofia.

A filosofia é a rainha de todas as ciências porque as dirige a todas.

Segundo Comte, a tarefa da filosofia é classificar as ciências, determinar os seus limites, julgar os seus progressos. A função da filosofia não é conhecer este ou aquele objecto particular, mas dirigir as ciências nas suas pesquisas.

A filosofia possui uma dimensão normativa que é orientar as outras ciências.

teofilo

Teófilo segue a orientação positivista de Comte ao reduzir a filosofia a uma sistematização racional do universo, conforme o afirma na sua obra, Traços Gerais da Philosophia Positiva : «a filosofia propriamente dita é: uma síntese do universo formada sobre todas as leis verificáveis da ordem biológica e moral, tendente a fortificar a consciência humana pela separação entre o desconhecido (aquilo que não se conhece) e o incognoscível (aquilo que é impossível de conhecer)».

Teófilo prossegue expondo as concepções de Comte referentes á filosofia quanto à origem, ao objecto e quanto ao seu fim, defendendo que:

  1. Quanto à origem – Comte defende que é impossível formar uma filosofia geral sobre especulações sem realidade, logo, a filosofia resulta ou tira a sua origem das ciências, de verdades concretas que levam depois ao estado de abstracção (que é origem de todo o progresso cognitivo, segundo aristóteles) sem o qual as ciências não progrediriam.
  2. Quanto ao objecto – a filosofia tem em vista estabelecer a necessária distinção entre o desconhecido e o incognoscível. A filosofia visa organizar as descobertas sucessivas do mundo exterior, físico, e as descobertas do mundo moral relacionando sempre a mútua dependência destas duas ordens do conhecimento.
  3. Quanto so seu fim – a filosofia «alarga as nossas forças intelectuais, e eleva-nos a uma compreensão mais alta das nossas relações físicas e animais com o universo. A filosofia tem a finalidade de permitir a perfectibilidade do homem e dar capacidade ao mesmo para atingir a perfeição nas suas criações.

É desta finalidade que surge a necessidade de impor um estado positivo, capaz de fazer o homem superar a sua menoridade aparente a atingir a excelência da sua natureza.

É desta compreensão da origem, objecto e fim da filosofia que se impõe a necessidade de expor e compreender as várias fases filosóficas porque tem passado a inteligência humana e através deste exercício fixar as bases de uma filosofia capaz de possuir um carácter geral e capaz de assegurar verdades incontestáveis.

A ordem progressiva do espírito humano leva-nos a três diferentes estados:

1. ESTADO TEOLÓGICO OU FICTÍCIO

[PAG. 25] «Antes da observação dos phenomenos, a mente do homem foi absorvida na sua contemplação; a actividade da imaginação foi suscitada pelas apparencias do mundo exterior, e quando a razão começou a discriminar [diferenciar, distinguir], já o hábito de tomar a apparencia como uma realidade falsificava os meios de conhecimento da pura realidade. [neste estado teologico, estamos limitados pelo habito de tomarmos a aparencia como realidade] Ora, é n’este estado de espírito que nos apparecem os mais vastos systemas de explicação do universo[nomeadamente as teogonias[genealogias e filiação dos deuses] e cosmogonias[criações do mundo].» [...] «o homem entra em todos os intuitos de cada phenomeno, forma uma theoria para cada força, determina ao certo o porquê da sua existência, o para quê da sua manifestação ou finalidade.» [...] «Não existia sciencia, e pelo seu systema de explicações universaes e absolutas, bem se vê que entre a multiplicidade dos problemas que a intelligencia humana é susceptível de propôr ainda não surgira a distincção disciplinadora entre o cognoscível e o incognoscível.» [Neste estado não existe uma capacidade de distinção, que é essencial para se fazer ciência, entre aquilo que se pode conhecer e aquilo que é impossível de se conhecer. É este estado de incapacidade de distinguir os fenómenos e procurar explicá-los racionalmente que leva á predominancia da imaginação sobre a razão.

2. ESTADO METAFÍSICO OU ABSTRACTO

Este estado apresenta um notável progresso no desenvolvimento da humanidade pois, embora se continue a indagar sobre o porquê das coisas, o princípio da explicação já não se coloca em presumíveis realidades divinas e fora da natureza, mas nas próprias coisas são imutáveis e necessárias na medida em que estas actuam de acordo com propriedades, entidades abstractas ou poderes naturais. A própria natureza contem, pois, a capacidade de explicação dos fenómenos.

O conhecimento continua a ter um carácter absoluto, na medida em que as entidades ou propriedades das coisas são imutáveis e necessárias, e estão livres da relatividade e circunstância de cada coisa em concreto. A redução das causas transcendentes e sobrenaturais a princípios inseridos na natureza das próprias coisas significa uma certa racionalização do conhecimento; no entanto este, continua a sobrepor-se ao poder da imaginação, que cria e crê em semelhantes entidades.

Apesar das suas deficiências, o estado metafísico supera o estado teológico e serve de prepraração para o estado positivo.

3. ESTADO POSITIVO OU REAL

É o ultimo estado do desenvolvimento do espírito humano e, no entender de Comte, o estado definitivo em que a humanidade irá perdurar. Entra-se nele quando o homem abandona a interrogação sobre o porquê dos fenómenos e afasta as pseudoquestões teológicas e metafísicas pela sua falta de utilidade e proveito para a nova sociedade positivista. Agora já não se pergunta pela causa ou essência das coisas, mas pelo modo como se dão os fenómenos e pela regularidade ou lei em que ocorrem.

O conhecimento terá um carácter relativo e o exercício da imaginação é substituido por um saber da razão, dentro dos limites do que é dado, orientada para a acção operativo-instrumental. É a razão prática da sociedade industrial, que cria e opera sobre a técnica, entendida esta como aplicação da ciência. No estado positivo não se procura pois nenhuma explicação mas uma mera descrição dos fenómenos e das suas regularidades mediante a observação e o raciocínio sobre os factos observados.

 

Este determinismo, juntamente com a previsibilidade, a ordem e o progresso são as pedras basilares do pensamento positivista no movimento das sociedades.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Hasta la vitoria final

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MANCHESTER UNITED 2:2 FC PORTO

Grande jogo e grande vitória da equipa portuguesa nestes quartos de final da champions league.

Efectivamente, o Porto é, «hic et nunc», a única referência grandiosa que transporta Portugal para as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo.

Dá um orgulho indefinível ver um clube português silenciar Old Trafford, remetendo estes britânicos mal resolvidos, para a menoridade da sua existência. Podem ser mais ricos, mais influentes, mais poderosos, mas não são melhores. Obrigado PORTO, até quarta-feira.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aquele Querido Mês de Agosto

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Depois de Valdivia, São Paulo, Guadalajara e de Las Palmas, o filme «Aquele Querido Mês de Agosto» acaba de ser galadoardo com o prémio de melhor filme estrangeiro do festival de cinema de Buenos Aires.

Confesso que ainda não vi, mas estou à espera do dvd.

De qualquer forma, parece valer a pena. Acho que a nova geração de cinestas deste país está realmente empenhada em mudar o panorama cinematográfico. Já não era sem tempo!

sábado, 7 de março de 2009

Wuthering Heights

 

43303 42972Obra maior da literatura Inglesa, «O Monte dos Vendavais» ou «Abismos de Pasion», como lhe chamou Buñuel, é um assombro, talvez seja a maior história de amor da literatura mundial. O Amor cruel, louco, imortal, destrutivo e imoral de Kathy e Heathcliff ficará para a história das letras como o mais profundo e sincero alguma vez retractado pelo homem. É a demonstração de genialidade artística de Emily Brontë. Heathcliff jamais sairá da nossa memória, onde permanece com um carinho, uma ternura e uma compreensão estranha. Como é possível gostar de Heathcliff? Estranho é que a razão nos faz gostar dele, mesmo sendo cruel, frio e duro como o rochedo mais exposto á névoa invernal. Heathcliff simboliza o verdadeiro homem nas profundezas da injustiça, da solidão, do ciúme e da cólera. Mas ele será sempre o nosso herói.

Os ventos uivantes trazem sempre notícias duras para o homem. Lembra-lhe sempre a sua menoridade, a sua insignificância perante a natureza e perante os sentimentos. O homem não controla nada, é sempre devastado pela sua própria volitude.

Wuthering Heights é o relato figurado da realidade do mundo e da condição humana. Retracta o homem perante o seu espelho, perante a sua própria imagem.

O arrependimento fez de Catherine uma grande mulher, mas Heathcliff permanecerá sempre na nossa memória. Ele simboliza nós mesmos perante a nossa própria condição.

Para quem não leu e para quem não viu, é absolutamente obrigatório.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Tratado do Ser

por Ibn ‘Arabi

Ibn_Arabi “Em nome de Deus, o Misericordioso, o Beneficiente e a Quem pedimos auxílio: louvado seja Deus perante cuja unidade não houve um antes, excepto que o Antes seja Ele e depois de cuja unicidade não há um depois, excepto que o Depois seja Ele. Ele é, e com Ele não há depois nem antes, nem em cima nem em baixo, nem longe nem perto, nem união nem divisão, nem como nem onde nem quando, nem tempos nem momento nem idade, nem ser nem lugar. E Ele é agora como Ele era. Ele é o Um sem unidade e o Único sem unicidade. Ele não é composto de nome e denominação, pois o Seu nome é Ele e a Sua denominação é Ele. Por isso não há outro nome que não Ele. E assim Ele é o Nome e a Denominação. Ele é o Primeiro sem primazia e o Último sem ultimidade. Ele é o Exterior sem exterioridade e o Interior sem interioridade. Eu afirmo que Ele é a própria existência do Primeiro e a própria existência do Último e a própria existência do Exterior e a própria existência do Interior. Para que não haja nem primeiro nem último, nem exterior nem interior excepto Ele, sem que estes se tornem n’Ele nem Ele se torne nestes.

Compreende, pois, isso, para que possas evitar cair no erro dos Hululis (que acreditavam nas encarnações de Deus): Ele não está numa coisa nem uma coisa está n’Ele, ou entrando ou procedendo. É necessário que O conheças desta maneira, não pelo conhecimento (‘ilm), nem pelo intelecto, nem pela compreensão, nem pela imaginação, nem pelo sentido, nem pela vista exterior, nem pela vista interior, nem pela percepção. Ninguém O vê excepto Ele próprio. Por Ele próprio se vê e por Ele próprio se conhece. Ninguém O vê a não ser Ele e ninguém O percepciona a não ser Ele. O Seu véu é (apenas uma parte d’) a Sua Unidade. Nada vela que não seja Ele. O seu véu é (apenas) a ocultação da sua existência na Sua unidade, sem qualquer qualidade. Ninguém O vê a não ser Ele – nem Profeta enviado, nem santo perfeito, nem anjo trazido até nós O conhece. O Seu Profeta é Ele e o seu Enviado é Ele e a sua palavra é Ele. Ele enviou-se consigo para Si. Não houve mediador nem qualquer meio que não Ele. Não há diferença entre Aquele que envia e a coisa enviada, e a pessoa enviada e a pessoa a quem é enviada. A própria existência da Mensagem Profética é a Sua existência. não há outro e não há existência para outro que não Ele, nem para a sua cessação de ser (fana’), nem para o seu nome, nem para a sua denominação.”

Ibn ‘Arabi foi um mestre sufi, nascido em Murcia no ano de 1164. É considerado um al-cheikh al-akbar (maior mestre sufi). Estudou Jurisprudência e Teologia Islâmica em Lisboa. Morreu no ano de 1240 em Damas.

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Fonte: Al Funqán – Revista Portuguesa de divulgação do Islamismo

domingo, 4 de janeiro de 2009

A Filosofia Moral de Kant

kant-stamp Kant apresenta-nos uma perpectiva de moral deontológica. É influenciado pelo pietismo, um movimento religioso da igreja luterana que dá especial relevo á fé, á rectidão da vontade e á pureza interior. De Jean-Jacques Rosseau recebe a ideia de que todos os homens são capazes de discernir o bem do mal, e por isso todos são chamado a cumprir o seu dever. E recebe do iluminismo uma nova forma de encarar a razão. Para Kant, existe uma distinção clara entre o homem e o animal, e é a racionalidade que confere ao homem a capacidade de pensar por si mesmo. Servir-se da própria razão é ser autónomo e, portanto, livre. Na ética kantiana, o fundamento para a moral é a razão e para respodermos ás perguntas sobre como devemos agir ou o que devemos fazer, torna-se necessário caracterizar o ser humano.

Para Kant, o ser humano é marcado por uma dualidade: é um ser sensível, um ser da natureza condicionado pelas suas disposições naturais, que o levam á procura do prazer e á fuga da dor. Por outro lado, é um ser racional, ou seja, é capaz de se regular por leis que impõe a si mesmo. Assim sendo, o ser humano é um ser dividido entre a sua inclinação para o prazer e a necessidade de cumprir o dever. Tanto se pode deixar arrastar pelos seus instintos, como determinar-se pela razão. Ao contrário do animal, que está determinado a agir desta ou daquela maneira, o ser humano possui uma margem de liberdade, podendo agir de acordo com princípios que impõe a si mesmo. Assim, só podemos falar em moralidade se considerarmos que o ser humano é um ser livre. É essa liberdade que lhe confere dignidade. Á pergunta de como devemos agir, kant responde que devemos agir de maneira a não sermos governados por impulsos ou instintos naturais, mas sim de maneira a que obedeça aos princípios da razão.

Kant faz da boa vontade a condição de toda a moralidade. A boa vontade é boa pelo seu próprio querer, sendo governada pela razão. A moralidade é concebida independentemente da utilidade ou das consequências que possam advir das acções. É por isso que estamos perante uma ética não consequencialista. Ter saciado a fome a trinta pessoas ou apenas a uma é irrelevante para aferir a moralidade destes actos. Tudo depende da intenção com que as acções em causa foram realizadas. Ora, a intenção é o que caracteriza a vontade. A boa vontade corresponde uma boa intenção.

Para sabermos quando a vontade é boa, kant diz-nos que é boa quando se age por dever. O conceito de dever contém em si o de boa vontade. O dever será uma necessidade de agir por respeito á lei que a razão dá a si mesma. Antes de sabermos essa lei, devemos ter em conta que uma acção pode ser conforme o dever e não ser boa. A pessoa pode agir de acordo com o dever, mas movida por interesses egoístas. É o caso da atitude daquele comerciante que é honesto para com os seus clientes apenas para ter mais lucros. Ele não engana, não rouba, não viola as leis. Exteriormente, a sua acção está de acordo com o que deve ser feito. Mas, ao fazer tudo isso a fim de promover o seu próprio negócio, este comerciante não agiu moralmente bem. A sua acção foi apenas um meio de atingir um fim pessoal. Não agiu por dever.

O valor moral de uma acção reside na intenção. É o sentimento do dever, o respeito pela lei moral, que deve determinar a nossa acção.

Kant procura o fundamento de todas as regras. As leis morais são consideradas como válidas para a vontade de todo o ser racional, enunciando a forma como se deve agir. Neste sentido, podemos afirmar que só a máxima que se possa tornar uma lei universal é que possui valor moral. Kant escreve: «Age segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.

A fórmula kantiana não nos diz para agirmos desta ou daquela maneira, apenas nos indica a forma como devemos agir. Este é o princípio moral fundamental, assumindo a forma de imperativo categórico.

Kant distingue imperativo hipotético e imperativo categórico. Enquanto o hipotético apresenta uma acção como meio para alcançar determinado fim (por exemplo, estuda, se queres tirar boas notas), o imperativo categórico indica que a acção é necessária e boa em si mesma, independentemente dos fins que se possam alcançar com ela.

O imperativo categórico pressupõe que existem fins absolutos. Um fim absoluto é representado pela pessoa humana. Ao contrário das coisas, que têm um preço, a pessoa possui um valor único, possui dignidade. Por conseguinte, o imperativo categórico adquire outra formulação: «Age de tal maneira que uses a dignidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca como meio.

Para Kant, cada indivíduo, enquanto ser racional é autor das leis que impõe a si mesmo. A lei moral, universalmente válida, tem origem na razão e cada indivíduo é legislador e responde por aquilo que faz. A moralidade pressupõe a liberdade. O homem é livre, não quando faz aquilo que lhe apetece, mas sim quando cumpre com o seu dever.

Assim, o ser humano é habitante de dois mundo: o da natureza e o da moralidade, o do determinismo e o da liberdade. O valor moral da acção não reside nas consequências, mas sim na intenção. Centrendo-se no dever e na racionalidade, a ética kantiana é formal, uma vez que não indica regras concretas do agir, mas sim a sua forma, e é também uma ética que não se baseia na procura da felicidade, mas sim na realização da lei moral. 

 

 

 

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Fonte: Filosofia - Guia de estudo, Porto Editora

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Hallelujah

Aleluia é uma transliteração do hebraico Hallelujah, que significa Elogio ou louvor a Deus. É um elogio ao Criador.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

ESPINOSA

espinosaA chave da Filosofia de Espinosa é o monismo, isto é, a ideia de que há apenas uma substância, a substância divina infinita, idêntica á Natureza: Deus sive Natura, «Deus ou a Natureza». A identificação de Deus com a Natureza pode ser entendida de duas maneiras diferentes. Se considerarmos que «Deus» é, no seu sistema, apenas uma maneira codificada de referir o sistema ordenado do Universo natural, então Espinosa apresenta-se-nos como um ateu menos que cândido. Se, por outro lado, supusermos que ele está a dizer que, quando os cientistas falam de «Natureza», estão na realidade a falar de Deus, então surge-nos, nas palavras de Kierkegaard, como um «homem embriagado de Deus».

O ponto de partida oficial do monismo de Espinosa é a definição de substância de Descartes como «aquilo que de nada mais precisa, senão de si própria, para existir». Esta definição só se aplica literalmente a Deus, uma vez que tudo o resto tem de ser criado por Deus e por Deus pode ser aniquilado. Descartes, porém, contava entre as substâncias não apenas Deus, mas também a matéria criada e as mentes finitas. Espinosa levou a definição mais a sério do que o próprio Descartes e retirou dela a conclusão de que apenas existe uma substância: Deus. A mente e a matéria não são substâncias; o pensamento e a extensão, suas características definitórias, são na realidade atributos de Deus, de maneira que Deus é, simultaneamente, uma coisa pensante e uma coisa extensa. Sendo Deus infinito, argumenta Espinosa, tem de ter um numero infinito de atributos; mas o pensamento e a extensão são os únicos que conhecemos.

Não existem outras substâncias além de Deus porque se existissem, constituiriam limitações a Deus, e Deus não seria, como é, infinito. As mentes e os corpos individuais não são substâncias, mas apenas modos, ou configurações particulares, do dois atributos divinos do pensamento e da extensão. Assim sendo, a ideia de uma coisa individual implica a essência eterna e infinita de Deus.

Na teologia tradicional, todas as substâncias finitas estão dependentes de Deus, seu criador e causa primeira. Aquilo que Espinosa faz é representar a relação entre Deus e as criaturas não em termos físicos de causa e efeito, mas nos termos lógicos de sujeito e predicado. Qualquer afirmação aparentemente sobre uma substância finita é, na realidade, uma predicação sobre Deus; a maneira adequada de nos referirmos a criaturas como nós é utilizando não um substantivo, mas um adjectivo.

Tendo a «substância» um tão profundo significado para Espinosa, não podemos tomar como certo que ela exista de todo. Nem o próprio Espinosa o toma como certo: a existência da substância não é um dos seus axiomas. A substância aparece pela primeira vez, não num axioma, mas numa definição: ela é «aquilo que é em si e concebido por si». Outra das definições iniciais de Deus apresenta-o como substância infinita. As primeiras proposições da Ética são dedicadas a demonstrar que existe, no máximo, uma substância. Só na proposição XI nos é dito que existe pelo menos uma substância. Esta substância é infinita e é, portanto, Deus.

«Na Natureza, nada há de contingente; tudo é determinado pela necessidade de a natureza divina existir e operar de uma certa forma.»

Apesar da necessidade com que a Natureza opera, Espinosa afirma que Deus é livre. Isto não significa que tenha alternativas, mas apenas que existe pela mera necessidade da sua própria natureza e está livre de determinações exteriores. Tanto Deus como as criaturas são determinados, mas Deus é autodeterminado, enquanto as criaturas são determinadas por Deus. Há, contudo, graus de liberdade, mesmo para os seres humanos. Os últimos dois livros da Ética intitulam-se «Acerca da Servidão Humana» e «Acerca da Liberdade Humana». A servidão humana é a escravização ás nossas paixões; a liberdade humana é a libertação por meio do nosso intelecto.

Os seres humanos julgam, erradamente, que tomam decisões livres e não determinadas; não conhecendo as causas das nossas decisões, partimos do princípio de que ela não tem causa. A única libertação verdadeira consiste em tornarmo-nos conscientes das causas ocultas. Todas as coisas se esforçam por persistir no seu ser, ensina Espinosa; a essência das coisas é acompanhada pela consciência, e a esta tendência consciente chama-se «desejo».

o prazer e a dor são a consciência de uma transição para um nível superior ou para um nível inferior de perfeição da mente e do corpo. Todas as outras emoções derivam dos sentimentos fundamentais de desejo, prazer e dor. Mas temos de distinguir emoções activas de emoções passivas. As emoções passivas, como o medo e a ira, são geradas por forças externas; as emoções activas resultam da compreensão que a mente tem da condição humana.

Quando temos uma ideia clara e distinta de uma emoção passiva, ela transforma-se numa emoção activa; a substituição das emoções passivas por emoções activas é o caminho para a libertação.

Temos de afastar, em particular, a paixão do medo, e especialmente o medo da morte. «Um homem livre em nada pensa menos do que na morte; a sua sabedoria é uma meditação, não sobre a morte, mas sobre a vida.»

A chave para o progresso moral é a avaliação da necessidade de todas as coisas. Deixaremos de sentir ódio pelos outros quando percebermos que os seus actos são determinados pela Natureza. Devolver o ódio apenas o faz aumentar; mas responder-lhe com amor derrota-o. Aquilo que temos de fazer é lançar um olhar divino a todo o esquema natural das coisas, vendo-o «á luz da eternidade». Esta visão é, simultaneamente, um amor intelectual de Deus, uma vez que Deus e a Natureza são um só e, quanto mais compreendemos Deus, mais o amamos.

O amor intelectual da mente por Deus é exactamente a mesma coisa que o amor de Deus pelos homens, ou seja, é a expressão do amor-próprio de Deus por meio do atributo do pensamento. Mas, por outro lado, Espinosa adverte-nos para o facto de que «aquele que ama a Deus não pode esforçar-se para que Deus o ame também». Na realidade, se queremos que Deus nos ame em troca do nosso amor, queremos que Deus não seja Deus.

Espinosa rejeita claramente a ideia de um Deus pessoal, tal como é concebido pelos judeus e pelos cristãos ortodoxos. Também considera uma ilusão a ideia religiosa da imortalidade da alma. Para Espinosa, a mente e o corpo são inseparáveis: a mente humana mais não é, na realidade, do que a ideia do corpo humano. «Só se pode dizer que a nossa mente permanece, e que a sua existência tem limites temporais, na medida em que isso envolve a existência efectiva do corpo.» Mas, quando a mente vê as coisas á luz da eternidade, o tempo deixa de contar; o passado, o presente e o futuro são iguais, e o tempo é irreal.

Para Espinosa, não devemos preocupar-nos com o futuro nem sentir remorsos relativamente ao passado. A existência definitiva de qualquer mente como parte do Único Universo infinito e necessário é uma verdade eterna; olhando as coisas á luz das verdades eternas, a mente capta o Universo interminável, necessário e eterno. Nesse sentido, qualquer mente é eterna, e pode-se considerar que existia antes do nascimento e que existirá depois da morte. 

 

 

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Fonte: KENNY, Anthony, História Concisa da Filosofia Ocidental, Temas e Debates, Lisboa, 2003.

DESCARTES – O papel dos Sentidos

descartes Para Descartes, as nossas ideias das coisas sensíveis representam alguma coisa importante acerca da verdadeira natureza das coisas. As ideias sensoriais assemelham-se ás coisas. Os sentidos não nos dão um conhecimento no sentido mais pleno da palavra, eles têm uma outra função diferente.

Teoria Semiótica dos Sentidos:

Em Descarte, permanace a ideia de que os sentidos dão-nos sinais em relação ao meio ambiente e nós somos mecanismos de interpretação do meio ambiente.

A nossa relação semiótica não tem a ver com a verdade e falsidade. Há uma relação semiótica com a realidade proporcionada pelo corpo/sentidos.

O corpo é o instrumento que lê sinais da realidade, que assinala dano e vantagem desses sinais e a reacção do organismo a esses sinais permite ao organismo reagir a esse ambiente. A sede, por exemplo, é a reacção normal do organismo a um estado de desiquilibrio, o sinal é a secura na garganta mas podia ser outro.

  descartes-reflex          Descartes_De_homine

Queimar-me, é uma sensação externa, que designa um ambiente hostil e que não devo manter esse contacto porque é prejudicial para mim.

Os sentidos são algo diferente do que os Aristotélicos pensavam, não nos dão acesso ao conhecimento, mas orientam-nos para algo material. Não nos fazem saber a essência do mundo, dão-nos a superfície das coisas, mas são necessários, tem um papel prático, por exemplo, eu preciso de ver ou sentir para não me queimar.

Os sentidos são um complemento da ciência, da medicina, que precisam de detalhes físicos. Usar os sentidos para conhecer, é importante, mas o intelecto é que penetra nas coisas. Para Descartes, um mecanismo funcionar para aquilo que lhe é próprio, não é entendimento.

Os sentidos não dizem a verdade do mundo material. Os sentidos dão sinais de aviso que são vantajosos para nós enquanto seres materiais.

Quando recuperamos a confiança nos sentidos, concluiremos que, tal como dizia Platão, «sou uma coisa pensante com um corpo».

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Jakub Nepras – Babylon Plant

Em setembro, aquando de uma visita ao Museu Berardo, deparei-me com uma obra deveras impressionante, Babylon Plant. Esta obra, inovadora, representa a tecnologia de sobreposição de videos digitalmente trabalhados, engendrando um microcosmos impressionante. Algo que se pode reflectir critíca e filosóficamente.

Absolutamente recomendados.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Deveres de Hospitalidade

«Na antiga Grécia, existia um inviolável código de paz, enviado por Zeus, ao qual estavam abrangidos homens e deuses. É a obrigação de receber bem todo e qualquer estrangeiro, de prestar cuidados, auxilio, hospitalidade.
Qualquer pessoa, viajante, de passagem, bastava bater á porta, da forma mais prosaica do mundo, e seria recebido directamente pelo dono da casa. Este, abstendo-se de qualquer inquérito prévio, de forma a não configurar interesse mercantil, imediatamente disponibilizava uma escrava que, com uma bacia de água, sabão e panos limpos, oferecia ao estrangeiro para higiene e conforto inicial. O visitante lavava o rosto, as mãos e era imediatamente conduzido aos seus aposentos. Lá, encontrava acomodações e roupas limpas. O seu cavalo era tratado. O dono da casa instruía todos sobre a cordialidade para com o hóspede e durante cerca de dois ou três dias, era um banquete apreciável. Disponibilizava-se o que de melhor havia na casa: pães, azeites, frutas raras, vinho, faizões e cordeiros.
Ao fim destes dois ou três dias de festejos e fartura, finalmente o hóspede sentia-se compelido a, diante do seu anfitrião, da mulher deste e dos filhos, falar sobre a sua origem, os seus pais, a sua terra e, principalmente, o propósito da sua visita. Este propósito poderia ser uma simples viagem, algum interesse comercial, um comunicado importante, um chamado, um circunstancial e delicado momento de necessidade pecuniária, etc.
Não havendo relato e portanto ressonância de uma hospitalidade anterior, de qualquer modo, estava semeada a Paz. O anfitrião tinha como certo, o digno recebimento de algum dos seus em terras estrangeiras. Nessas ocasiões, muitas vezes, ocorria a rememoração de que algum ancestral, parente, amigo ou conhecido do anfitrião havia recebido hospitalidade por parte dos pais, parentes ou amigos do visitante e, nesses instantes, a camaradagem era sobreposta a tudo o mais. Celebrava-se e brindava-se ao 'pagamento' da Paz com a Paz. O hóspede, agradecido, despedia-se e prosseguia no seu caminho. O anfitrião sentia-se enobrecido por ter semeado ou simplesmente, selado a paz, perpectuado-a através do seu honroso gesto.
Nem sempre imperava a Paz nesse acordo tácito. Não eram raras vezes em que o viajante encantava-se com a esposa ou com uma das filhas do seu anfitrião. Acaso acontecesse, estava declarada a guerra.
Ser acolhido, bem recebido, e retribuir toda a distinção e apreço com uma aviltante traição era inadmissível! Violar uma regra sagrada era incitar á guerra!
Narra Homero, na Ilíada, que Páris, irmão de Heitor, filhos de Príamo e Hácuba, Reis de Tróia, violou essa lei. Ao sequestrar Helena, mulher de Menelau (mesmo tendo ido por sua livre e espontânea vontade) selou o trágico fim de uma dinastia. Todos os Gregos se aliaram a Menelau, irmão de Agamémnon, Rei de Esparta, para a guerra. Tróia foi destruída. Sucumbiu por ter incorrido no erra de ter acobertado o mais famoso adultério da história do mundo antigo. Tróia atraiu a guerra.»

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Um texto de Luciene Félix - professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana da ESDC.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A Questão Homérica

Que data deveremos atribuir a esse acontecimento que é a passagem da recitação dos versos pela memória para a fixação na escrita? Quem terá sido Homero: um bardo ou o epónimo (personagem que dá o nome) de uma comunidade de poetas? Terá sido ele o autor dos dois poemas: a Ilíada e Odisseia?
Estas perguntas, impossíveis de responder com certeza, além de outras que lhes estão ligadas, ocupam há cerca de vinte e três séculos, os estudiosos dos poemas, constituindo a questão homérica. Das multiplas interrogações a que foi dando origem avulta uma que, a partir dos anos 30, se tem afirmado como fulcral para a compreensão dos poemas, a saber, a do seu modo de composição.
Foram as investigações de Milman Parry que, no final dos anos 20, vieram a inspirar uma das interpretações que maior aceitação tem tido nos nossos dias: aquela que aqui se tem pontualmente apresentado.
Defende essa escola a génese oral dos poemas, a partir de um ciclo de cantos que, através dos tempos, gerações de bardos teriam vindo a reproduzir e ampliar. Como vimos, no início do século VIII a.C., um bardo, ou uma comunidade que adoptou o seu nome, ter-se-á devotado á empresa de lançar por escrito a Ilíada e a Odisseia.
Á primeira vista, perante a extensão e a diversidade dos cantos que relatavam o ciclo troiano, a tarefa mais delicada residiria na composição unitária dos poemas, como corpos coerentes e autónomos. Esta exigência determinou a narração dos factos segundo uma perspectiva temática, que não hesita em desprezar momentos cruciais na narrativa:
'canta, ó Musa, a cólera funesta de Aquiles...'
a proposição expressa nos dois primeiros versos da Ilíada obriga a serem postos de parte acontecimentos como as causas e o início da expedição, a morte do herói, a queda e a destruição de Tróia e as circunstâncias em que decorre o regresso dos combatentes ás suas terras. Do mesmo modo, na Odisseia, o tema dos errores de Ulisses acomoda sucessívos episódios numa narrativa em que a ordem cronológica é repetidas vezes sacrificada á cuidadosa preparação do clímace: o reconhecimento de Ulisses por Penélope e a carnificina dos pretendentes.
O produto de tanto engenho são dois grandiosos polípticos, em que várias sociedades são retratadas através da descrição de episódios das vidas das suas personalidades mais ilustres. Mas o factor que mais poderosamente terá contribuído para assegurar o interesse das gerações vindouras terá sido o quadro ético-político que os poemas condensam. O modelo do herói homérico impõe-se como a expressão de um ideal de vida, que os gregos - e muitos outros, depois deles - nunca perderão de vista, mesmo quando abertamente o questionam.
Todavia, o que aqui nos prende é a importância e o significado destes poemas, quer como persistencia da memória oral dos Gregos, quer como momento de introdução da tecnologia que futuramente determinará as condições de sobrevivência de qualquer mensagem cultural. Referimo-nos á escrita.
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Fonte: SANTOS, José Trindade, Antes de Sócrates, Gradiva, 1992

Cultura Clássica – A Ilíada

AchillesAmbrosianIliad A Ilíada de Homero é o poema do homem na guerra, dos homens consagrados á guerra pelas suas paixões e pelos deuses. No entanto, a piedade é mais forte do que a vingança. A Ilíada fala do amor da glória que eleva o homem á altura dos deuses.

Acima de todas as coisas, este poema, fala do amor da vida, e também da honra do homem, mais alta que a vida e mais forte que os deuses.

A Ilíada retracta um episódio único, que dá a todo o poema a sua unidade de acção, é o da cólera de Aquiles, da sua querela com Agamémnon, rei de Micenas e chefe da expedição contra Tróia, e das consequências funestas desta querela para os Gregos-Aqueus que assediavam Tróia.

 ‘Canta-me, ó deusa, a cólera funesta de Aquiles…’

Agamemnon, chefe supremo, exige de Aquiles, o mais valente dos Gregos, «muralha do exército», que lhe ceda uma bela cativa, Briseida, que lhe coubera quando da partilha de um saque. Aquiles recusa-se, indignado, a ser privado de um bem que lhe pertence. Na assembleia do povo armado, onde esta exigência lhe é feita, insulta gravemente Agamemnon («Ó ser vestido de imprudência, avaro…, descarado, focinho de cão…, odre de vinho, coração de servo…»), queixa-se de suportar sempre o fardo mais pesado do combate e receber em troca uma parte inferior á de Agamemnon. Aquiles pronuncia diante de todos os seus camaradas o juramento solene de se retirar da batalha e de se fechar na sua tenda, de braços cruzados, enquanto não tiver recebido de Agamemnon reparação da afronta infligida á sua bravura. Assim o faz.

‘ pois agora vou para Ftia, já que é muito melhor ir para casa. […] não tenciona ficar aqui sem honra…’

A sua retirada – e, com ela, a dos mirmidões – tem para o exército dos Aqueus as mais graves consequências. Na planície, sob os muros de Tróia, sofrem três derrotass, cada uma mais desastrosa que as outras. Os Tróianos, comandados por Heitor, filho de Príamo, avançam pela planície, preparando-se para deitar fogo aos barcos dos Gregos, para lançar o seu exército ao mar.

Ao longo destes duras batalhas, a ausencia de Aquiles, torna-se no sinal evidente da sua força e do seu poder. Os mais valentes dos chefes Aqueus – o maciço Ájax, filho de Télamon, o rápido Ájax, filho de Oileu, o fogoso Diomedes, e muitos outros mais, em vão se esforçam por substituir Aquiles. Mas Aquiles encarna em si, toda a cirtude guerreira, sem falha nem fraqueza. Possuindo tudo e recusando tudo, provoca a derrota de todos.

iliad

achilles

Numa noite trágica, entre dois desantres, enquanto na sua tenda se atormenta na inactividade a que se condenou e que lhe pesa, Aquiles vê vir do campo dos Gregos uma embaixada de que fazem parte dois dos grandes chefes do exército: Ájax, o primeiro defensor dos Gregos depois de Aquiles, tão teimoso como um burro puxado por crianças, o subtil Ulisses que conhece todas as voltas do coração e da palavra. A estes dois guerreiros se juntou o velho que criou a infância de Aquiles, o tocante Fénis, que lhe faz ouvir a palavra e como que o apelo insistente de seu pai. Os três lhe suplicam que volte, que não falte á lealdade que o soldado deve aos seus camaradas, que salve o exército.

Aquiles recusa, ferido ainda no seu orgulho e na sua honra, e vai mais longe: declara que no dia seguinte retomará os caminhos do mar com as suas tropas e voltará ao lar, preferindo uma velhice obscura á glória imortal, que escolhera, de morrer novo diante de Tróia.

Mas, vem o dia seguinte e Aquiles não parte.

Ao ver a destruição iminente dos Gregos, Aquiles mostra-se sensível ás suplicas do mais querido dos seus companheiros, Pátroclo. Pátroclo, em lágrimas, pede ao seu chefe que lhe permita combater em seu lugar, revestido dessas ilustres armas de Aquiles, que não deixarão de amedrontar os Troianos. Pátroclo repele os Troianos para fora do campo, longe dos barcos, mas nesta brilhante contra-ofensiva que dirige, esbarra com Heitor que lhe faz frente. Heitor mata Pátroclo em combate singular, não sem que Apolo invisível tenha ajudado a esta morte que, obtida pela intervenção de um deus, se assemelha a um assassínio.

‘A alma evola-se dos seus membros para a mansão do Hades, gemendo a sua sorte, ao deixar a força da juventude.’

A dor de Aquiles, ao saber da morte do amigo, é assustadora. Jazendo no chão, recusando alimentar-se, arrancando os cabelos, sujando as roupas e o rosto de cinza, Aquiles soluça e pensa em morrer.

Por mais viva que tenha sido anteriormente a ferida infligida á sua honra por Agamemnon, a morte de Pátroclo cava em Aquiles abismos de sofrimento e de paixão que o fazem esquecer o resto. Mas é esta mesma dor que o restitui á vida e á acção, desencadeando nele uma tempestade de furor, uma raiva de vingança contra Heitor assasssino de Pátroclo e contra o seu povo.

Assim se opera no poema, uma reviravolta completa da acção dramática.

Aquiles volta ao combate. É a sua batalha, a da carnificina terrível que ele faz de todos os Troianos que encontra no caminho. Derrotado o exército Troiano, Aquiles fica cara a cara com Heitor. Chegou o momento mais desejado de vingança de Aquiles.

O combate singular de Heitor e de Aquiles é o ponto culminante da Ilíada. Heitor combate como um valente, com o coração todo cheio de amor que dedica á mulher, ao filho, é sua terra. Aquiles é mais forte. Os próprios deuses que protegiam Heitor se afastam dele. Aquiles fere-o mortalmente. Leva para o campo dos Gregos o corpo de Heitor, não sem o ter ultrajado: ata o inimigo pelos pés á retaguarda do seu carro de guerra e com uma chicotada faz correr os cavalos, «e o corpo de Heitor era assim arrastado na poeira, os seus cabelos negros desmanchados, a cabeça suja de terra – essa cabeça antes tão bela, que Zeus agora entregava aos inimigos para que eles a ultrajem sobre o solo da pátria».

O poema não termina com esta cena. Aquiles, a quem Príamo vai suplicar na sua tenda, entrega-lhe o corpo do desgraçado filho. Heitor é sepultado pelo povo Troiano com honras fúnebres. Os lamentos das mulheres, os cantos de luto que elas improvisam, falam da desgraça e da glória daquele que deu a vida pelos seus.

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Fonte: BONNARD, André, A Civilização Grega, Tradução de José Saramago, Edições 70, Lisboa.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

É Preciso Reflectir. É Preciso Acreditar!

O tempo avança mais rápido do que imaginávamos. É preciso compreender e é preciso acreditar. A mudança está em cada um de nós e a responsabilidade pesará sempre nos nossos ombros e na nossa consciência. É PRECISO ACREDITAR!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Il Uomo Bianco


"Quando l'ultimo albero
sará abbattuto
l'ultimo fiume avvelenato
l'ultimo pesce pescato,
ti accorgerai, uomo bianco,
che non potrai mangiare
il tuo denaro"*











Tradução livre: "quando a última árvore for abatida, o último rio envenenado, o último peixe pescado, tu perceberás, homem branco, que não poderás comer o teu dinheiro".
* da Sakonkwenonkwas, messaggio di una dona indiana ai capi delle nazioni occidentali

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Ernesto Cardenal


Ernesto Cardenal é um importante poeta nicaraguense, nascido a 20 de Janeiro de 1925 na cidade de Granada. Partidário do grupo de ideologia revolucionária da Teologia da Libertação, em 1965 foi ordenado padre pela igreja católica ao qual viria a ser despojado em 1979 quando aceitou ser ministro da cultura do governo sandinista da Nicarágua. Em 1983, aquando da visita de João Paulo II á Nicarágua, Ernesto foi severamente admoestado pelo papa, acusando-o de difundir doutrinas apóstatas. Ultimamente tem vindo a ser perseguido no seu país, principalmente pelo presidente Daniel Ortega que mantém com este quezílias de sentido ideológico.

Deixo aqui o seu belo poema Al perderte yo a ti:

Ao perder-te eu a ti
tu e eu teremos perdido.
Eu, porque tu eras
o que eu mais amava;
tu, porque era eu
que te amava mais.
Mas, de nós dois
tu perdes mais do que eu.
Porque eu poderei amar a outras
como amava a ti,
Mas a ti não te amarão mais
do que te amava eu!